Tomava banho numa saladeira de alumínio e a chupeta era mais pequena do que um dedo mindinho. Raul nasceu com 620 gramas e 24 semanas de gestação no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, há sete anos, e foi um dos mais pequenos prematuros a sobreviver sem sequelas em Portugal.
Nos 86 dias que passou na unidade de neonatologia Raul teve altos e baixos.
Ultrapassou uma septicemia, que o fez descer de peso até aos 588 gramas nos primeiros 10 dias de vida.
«Ainda hoje me fazem impressão aqueles barulhos das unidades de cuidados intensivos. Foram muitos dias no hospital», recorda em declarações à agência Lusa a mãe, Nélia Araújo, que diz que se lembra como se fosse hoje do dia 24 de Fevereiro de 1999.
Imensos tubos saiam do corpo de Raul
Nos primeiros dias nem estava sequer vestido. Os imensos tubos que saíam do corpo de Raul impediam que pudesse ter qualquer peça de roupa.
Raul parou de crescer às 24 semanas, um marco a partir do qual, segundo os especialistas, existem 50 por cento de probabilidades de sobrevivência.
Durante os meses em que esteve internado na unidade de neonatologia do Hospital São Francisco Xavier engordou até aos 1,8 quilos, peso com que foi para casa.
«Eu passava lá os meus dias. As enfermeiras sempre me aconselharam a tocar-lhe e cantar baixinho junto à incubadora. Ainda hoje há canções que ele adora e muitas são as que ouvia no hospital, cantadas por mim», conta.
Havia um período que, fosse a que horas fosse, Nélia fazia questão de estar presente: quando os médicos mudavam as sondas e os tratamentos eram mais dolorosos para o bebé.
Aos 56 dias de internamento arrancou os tubos
A personalidade do pequeno Raul começou a desenhar-se bem cedo. Aos 56 dias de internamento arrancou os tubos de ventilação que o ajudavam a respirar.
«Ele respirava ajudado por um tubo de ventilação mais profunda, directo aos pulmões. Um dia cheguei e quando o vi sem tubos não queria acreditar. Apesar dos médicos alertarem que não era comum uma mudança tão brusca (sem passar pelas outras fases de respiração assistida) ele foi um herói».
Tomava banho numa saladeira
A partir deste dia as rotinas mudaram. Raul deixou de ser limpo com soro e passou a tomar banho fora da incubadora, «numa taça idêntica a uma saladeira de alumínio daquelas que usam nos restaurantes».
O primeiro dia em casa
Daí até aos 1,8 quilos com que foi para casa, no dia 18 de Maio de 1999, «foi um salto».
No primeiro ano em casa ainda chegou a ser acompanhado por elementos da Associação de Pais e Amigos do Hospital São Francisco Xavier - os Francisquinhos, com exercícios de desenvolvimento respiratório e motor.
Depois, com a entrada para a escola, a ansiedade dos pais voltou a aumentar.
«Acompanhava-o imenso em casa. Tinha sempre o cuidado de puxar por ele, talvez com medo de se atrasar em relação aos outros coleguinhas da escola. Fazia diariamente fichas de trabalho em casa, para ter a certeza que ele percebia de facto as coisas», explica.
«Como felizmente esteve sempre tudo bem, todos os parâmetros ao nível cognitivo, físico e motor estavam bem, o Raul acabou por ter alta das consultas médicas de desenvolvimento aos cinco anos de idade. Hoje vai apenas àquelas consultas normais no pediatra como as outras crianças da idade dele», conta.
Prestes a fazer oito anos de idade, Raul frequenta hoje o 2º ano do 1º ciclo do Ensino Básico, pratica desporto na escola e mais recentemente ganhou paixão pelo golf.
1 comment:
o grande milagre deu-se a 3 Setembro de 75 na maternidade bensaúde...
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